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O logótipo é entregue, a fatura é paga, e meses depois alguém pede o ficheiro para mandar imprimir uma lona. A empresa procura na caixa de correio e encontra um PNG de 800 pixéis de largura que, ampliado para três metros, fica com os contornos serrilhados. Telefona ao designer. Às vezes ele responde; às vezes mudou de atividade, está de férias ou não guardou nada.
Esta é uma das situações mais comuns e mais evitáveis de todas as que envolvem identidade visual. Evita-se com duas conversas antes de encomendar: que ficheiros vou receber e de quem é o logótipo depois de pago.
Este artigo responde às duas.
A diferença que explica tudo: vetor e imagem de pontos
Há dois tipos de ficheiro de imagem, e confundi-los é a origem de quase todos os problemas.
Uma imagem de pontos (JPG, PNG) é uma grelha de pixéis com um tamanho fixo. Ampliá-la é esticar essa grelha: os contornos perdem definição. Serve para o que tem tamanho conhecido — um site, um perfil de rede social, uma assinatura de email.
Um ficheiro vetorial (AI, EPS, SVG, PDF vetorial) não guarda pixéis: guarda a descrição matemática das formas. Pode ser impresso do tamanho de um cartão de visita ou de uma fachada com a mesma nitidez. É o original do logótipo.
A regra prática é curta: quem tem o vetor tem o logótipo; quem tem só o PNG tem uma cópia. Se a entrega não incluir ficheiros vetoriais, a empresa não recebeu a sua identidade — recebeu imagens dela.
O que deve constar da entrega
Ficheiros vetoriais — o original
É o que permite imprimir em qualquer tamanho, bordar numa farda, gravar em acrílico, cortar em vinil. Qualquer gráfica os pede. Deve ficar com a empresa, não apenas com o designer.
Ficheiros para ecrã
PNG com fundo transparente em vários tamanhos, para o site, documentos e redes sociais. JPG serve quando o fundo é sempre branco, mas não permite transparência.
SVG para o site
É vetorial e é lido por qualquer navegador. Fica nítido em qualquer ecrã, incluindo os de alta definição, e costuma pesar muito menos do que a imagem equivalente — o que ajuda a velocidade da página.
As versões que vão fazer falta
Um logótipo raramente vive sozinho numa única forma. A entrega deve prever, pelo menos:
- Versão principal, a cores.
- Versão a uma cor, positiva e negativa, para fundos escuros, carimbos, gravações e impressão a preto.
- Versão horizontal e versão compacta, porque um rodapé e um avatar redondo não pedem a mesma forma.
- Símbolo isolado, quando existe, para ícones e perfis.
- Favicon, o ícone pequeno que aparece no separador do navegador.
As regras de utilização
Um documento, mesmo curto, com as cores exatas, os tipos de letra, o espaço mínimo à volta do logótipo e o que não se deve fazer com ele. Sem isto, o logótipo desfaz-se ao fim de dois anos: cada fornecedor usa um tom de azul ligeiramente diferente e ninguém percebe porquê.
Os tipos de letra
Saber que tipos de letra foram usados e em que condições podem ser utilizados. Muitos são licenciados, e a licença de quem desenhou não passa automaticamente para quem encomendou.
Os códigos de cor, e porque são três
A mesma cor tem representações diferentes consoante o destino, e é por isso que o documento de regras deve trazer todas.
| Código | Para que serve |
|---|---|
| RGB / HEX | Ecrãs: site, redes sociais, apresentações |
| CMYK | Impressão em quadricromia: folhetos, cartões, catálogos |
| Pantone | Cor exata em impressão especial, vinil, serigrafia, têxtil |
Sem o valor CMYK ou Pantone, a gráfica converte por aproximação — e a empresa recebe cartões de visita com um azul que não é bem o seu.
De quem é o logótipo depois de pago
Esta é a parte que quase ninguém pergunta e a que mais problemas causa mais tarde.
Pagar um trabalho de design não transfere automaticamente todos os direitos sobre ele. Em Portugal, a criação está protegida por direito de autor, e o que passa para o cliente é o que o contrato ou a proposta disserem que passa. Se nada disser, fica ambíguo — e a ambiguidade só se nota no dia em que há um desacordo.
Por isso, a proposta deve dizer por escrito, em linguagem simples:
- Que a empresa pode usar o logótipo sem limite de tempo, de suporte ou de território.
- Que pode usá-lo em qualquer material, incluindo comercial e publicitário.
- Que recebe os ficheiros originais editáveis, e não apenas versões exportadas.
- O que acontece se quiser mais tarde alterar o logótipo com outro profissional.
- Se o designer pode mostrar o trabalho no portefólio — o que é normal e raramente incomoda alguém, desde que esteja dito.
Ter o logótipo não é ter a marca registada
São coisas diferentes e vale a pena não as confundir. O direito de autor protege a criação; o registo de marca pode conferir um direito exclusivo sobre o sinal nos produtos, serviços e território abrangidos pelo registo, sujeito aos limites legais. Em Portugal, o pedido é feito no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. A disponibilidade do nome ou desenho deve ser verificada antes do pedido.
Antes de registar, verificar se já existe marca semelhante evita gastar dinheiro num nome que vai ser recusado — ou, pior, construir uma identidade inteira à volta dele.
O que fazer se já não tem os ficheiros
Acontece muitas vezes, e há saída.
- Procurar na origem. A caixa de correio do endereço usado na altura, o serviço de partilha de ficheiros, a gráfica que imprimiu os primeiros cartões — as gráficas costumam guardar os ficheiros que receberam.
- Contactar quem fez o trabalho, mesmo anos depois. Muitos guardam arquivo.
- Mandar redesenhar em vetor. Partindo da melhor imagem disponível, refaz-se o logótipo em vetor com fidelidade. É um trabalho pequeno e resolve o problema de vez.
- Aproveitar para arrumar o resto: versões em falta, códigos de cor, favicon e um documento de regras.
Uma conversão automática de imagem para vetor com uma ferramenta online parece resolver e quase nunca resolve: gera contornos irregulares que se notam em grande formato. Serve para ver, não para imprimir.
Onde o logótipo vai aparecer, e o que cada sítio exige
A lista de ficheiros deixa de parecer exagerada quando se percebe onde o logótipo vai ter de caber.
| Onde | O que é preciso |
|---|---|
| Site | SVG ou PNG transparente, versão horizontal e versão compacta para telemóvel |
| Separador do navegador | Favicon, normalmente a partir do símbolo isolado |
| Redes sociais | Símbolo isolado, legível dentro de um círculo pequeno |
| Assinatura de email | PNG leve, largura fixa |
| Cartões e folhetos | Vetor com cores CMYK |
| Lonas, fachadas, viaturas | Vetor, muitas vezes com Pantone |
| Fardas e bordados | Vetor e versão a uma cor |
| Carimbos e gravações | Versão a uma cor, sem efeitos |
Nenhuma destas utilizações é rara. Quase todas aparecem no primeiro ano de vida de uma empresa, e é por isso que a entrega deve prevê-las antes de fazerem falta.
Perguntas frequentes
Um PDF do logótipo chega?
Depende do que está lá dentro. Um PDF pode conter vetor ou apenas uma imagem colada. Se foi exportado a partir do original vetorial, serve para a gráfica; se é uma fotografia dentro de um PDF, não serve para nada que envolva ampliar.
E se o logótipo tiver um efeito, sombra ou degradê?
Funciona bem no ecrã e complica em quase tudo o resto — bordados, carimbos, gravações, impressão a uma cor. É por isso que a versão a uma cor não é um extra: é a que garante que o logótipo sobrevive a suportes que não têm cor.
Quem deve guardar os ficheiros?
A empresa, num sítio que não dependa de uma pessoa: uma pasta da empresa, não a caixa de correio de quem tratou do assunto na altura. É a diferença entre ter a identidade e depender de alguém para lhe chegar.
Posso alterar o logótipo mais tarde com outro profissional?
Com os ficheiros originais na mão e os direitos de utilização acordados por escrito, é um trabalho normal. Sem uma coisa ou outra, torna-se uma negociação.
Quantas propostas de logótipo é normal receber?
Não há número certo, e mais propostas não significa melhor trabalho. Um processo com duas ou três direções bem fundamentadas costuma dar melhor resultado do que dez variações apresentadas para o cliente escolher a que gosta mais.
Uma lista para levar para a reunião
Antes de aprovar uma proposta de logótipo, confirme que ela diz, por escrito: quais os ficheiros entregues e em que formatos; que versões (cores, uma cor, horizontal, compacta, símbolo, favicon); os códigos de cor RGB, CMYK e Pantone; os tipos de letra e as suas licenças; se há documento de regras; e o que a empresa pode fazer com o logótipo depois de pago.
São seis linhas numa proposta e evitam o telefonema de daqui a três anos. Se quiser ver como tratamos isto, está na página de criação de logótipo — e, porque a identidade é o ponto de partida do desenho das páginas, faz sentido fechá-la antes de avançar para a criação do site.
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